23.11.09

Cristo-Rei

Como é sabido festejou-se ontem a solenidade do Cristo-Rei. Li recentemente na excelente revista que assinei, “Catholica”, um artigo sobre a solenidade do Cristo-Rei. No ano em que se comemoraram os cinquenta anos da inauguração da estátua do Cristo-Rei em Almada seria interessante recuar no tempo e compreender o espírito que presidiu à criação desta festa litúrgica por parte do papa Pio XI, e que veio em grande medida a ser subvertido pelas alterações introduzidas pelo papa Paulo VI. Num mundo que acabava de viver o horror da I Guerra Mundial Pio XI pretendia dar-lhe um motivo de esperança e combater aquilo que ele muito bem considerava ser a “peste do século” (e que continua a ser a do actual): a laicização crescente das nossas sociedades. Escrevia Pio XI na sua encíclica inaugural (Urbi Arcano, 1922): “No dia em que os Estados e os governos regulamentarem a sua vida política quer interna quer externa, com base nos ensinamentos e nos preceitos de Jesus-Cristo, então, e só então, poderão usufruir de uma verdadeira paz, manterão relações de mútua confiança e conseguirão resolver pacificamente os seus problemas”. Vivendo nós em tempos democráticos, isto é de “soberania do povo” falar de soberania de Cristo, ou seja, de Deus é no mínimo motivo de uma grande gargalhada, a não ser que acreditemos na balela, que de resto nos quiseram impor a propósito da “construção europeia”, de que é possível a coexistência de duas soberanias. Pio XI com base em documentos do próprio Concílio de Trento declarou que Cristo é não só o nosso Redentor mas também o Legislador ao qual nos devemos submeter. Isto significa que Cristo deverá reinar não só nos corações de todos os homens mas também que todas as instituições que se devem igualmente reger e estruturar de acordo com a Sua Lei, no espírito daquilo que S. Pio X dizia muito justamente “Instaurare omnia in Christo”. Ou seja, para Pio XI, como para S. Pio X, o Reino de Deus começa a construir-se já neste mundo, é intra-histórico, mas a sua realização plena não será deste mundo. Na reforma introduzida no missal de Paulo VI este reino passa a ser de natureza escatológica, realizar-se-á no final dos tempos, quando Cristo regressar à terra, na Parúsia. Enviar a realização do plena do Reino de Deus lá para as “calendas gregas” vem alterar radicalmente a liturgia desta festa e os seus símbolos, o que é uma forma de niilismo e de revolução, algo de preocupante. O artigo termina com uma citação da Carta Apostólica Summorum Pontificum (2007), “aquilo que era sagrado para as gerações anteriores continua a sê-lo para nós, e não pode ser repentinamente proibido, ou mesmo considerado nefasto. Convêm-nos conservar as riquezas que cresceram na fé e na oração da Igreja, e atribuir-lhes o seu devido lugar. Esperemos, pois, que Bento XVI venha a corrigir esta situação.

9.11.09

A perenidade do Muro

Como é sabido e tem sido falado pelos meios de comunicação, comemora-se hoje o 20º aniversário da queda do muro de Berlim. Confesso que não deixa de me divertir ver afluir vários dirigentes políticos a Berlim para comemorar o evento, sabendo que quase todos eles comungam dos mesmos princípios, ou pressupostos ideológicos, que estão na base do comunismo (ou não fossem eles democratas), tais como: a soberania do povo, o antropocentrismo, o relegar da religião para a esfera privada, o igualitarismo, entre outros e não pretendem questioná-los. Esta a razão pela qual a grande maioria dos políticos ocidentais, mesmo daqueles que se diziam de direita, sempre se mostrou incapaz de antever a queda do comunismo porque na realidade nunca o compreenderam, o que significa que no fundo o muro ainda não caiu dentro das suas cabeças e que o comunismo continua vivo. As várias derrotas que o comunismo sofreu (tecnológica, científica, económica), não podem substituir aquela que falta e que é a mais importante de todas: a derrota política. Esta por sua vez só será possível com a reconversão do homem moderno, algo do qual infelizmente ainda estamos longe. Aliás se analisarmos a elaboração dos regimes demo-liberais pós 1945 vemos que esta demonstra uma total incapacidade de tirar lições da história recente, ao persistir-se na criação de governos de facções, ou partidos políticos, isto é, a vulgar e depreciativamente designada “partidocracia”. Estes governos têm-se caracterizado pelo predomínio da ideologia social-democrata, associada ao sinistro estado-providência, e que levam à despolitização do Estado. O conjunto destes governos da movida social-democrata lançou-se no processo de “construção europeia”, um fuga para a frente. O actual beco sem saída ao qual chegaram a generalidade das democracias europeias é bem a imagem do homem moderno que ao querer bastar-se a si próprio, isto é, ao não querer reconhecer que o critério da Verdade é exterior à sua vontade, fica incapacitado de se libertar daqueles que são os seus mais terríveis tiranos: ele próprio e o pecado.
Termino com uma citação de Furet, do epílogo do seu célebre livro “Le passe d’une illusion” (1995) e que me parece de grande actualidade:

“La faillite du régime né en 1917 et peut-être plus encore le caratère radical qu’elle a pris privent en effet l’idée communiste non seulement de son territoire d’élection, mais aussi de tout recours : ce qui est mort sous nos yeux, avec l’Union soviétique de Gorbatchev, englobe toutes les versions du communisme, des principes révolutionnaires d’Octobre jusqu’à l’ambition d’en humaniser le cours dans des conditions plus favorables. (…..) Mais il n’atteint pas uniquement les communistes et les communisants. Au de-là d’eux, il oblige à repenser des convictions aussi vieilles que la gauches occidentale, et même la démocratie. A commencer par le fameux « sens de l’histoire », par lequel le marxisme-leninisme avait prétendu donner à l’optimisme démocratique la garantie de la science. Si le capitalisme est devenu l’avenir du socialisme, si c’est le monde bourgeois qui succède à celui de la « révolution prolétarienne », que devient cette assurance sur le temps ? L’inversion des priorités canoniques défait l’emboitement des époques sur la route du progrès. L’histoire redevient ce tunnel où l’homme s’engage dans l’obscurité, sans savoir où conduiront ses actions, incertain sur son destin, dépossédé de l’illusoire sécurité d’une science de ce qu’il fait. Privé de Dieu l’individu démocratique voit trembler sur ses bases, en cette fin de siècle, la divinité histoire : angoisse qu’il va lui falloir conjurer ».

15.9.09

Aljubarrota

Tive recentemente o prazer de visitar o “Centro de interpretação da Batalha de Aljubarrota” inaugurado há quase um ano pelo social-democrata que preside à república a que nos condenaram. O referido centro foi construido, entre outros, pela Fundação António Champalimaud, devido à vontade expressa por António Champalimaud no seu testamento, e encontra-se na vila de S. Jorge (Batalha), isto é, no local exacto da onde ocorreu a batalha. Da visita fazem parte, para além da exposição permanente que nos procura integrar no contexto da época e compreender o desenrolar dos acontecimentos que culminaram na batalha de Aljubarrota, um filme muito bem feito e que nos dá bem a dimensão do esforço épico de um punhado de homens para defender algo que para eles era inegociável, a soberania, algo que reencontraremos mais tarde em 1640. Saí dali interrogando-me sobre que sentido tem hoje falar em soberania, sabendo nós a forma abjecta e escandalosa como os traidores abrilinos de uma só penada mandaram às urtigas todo o esforço daqueles homens (e dos que se lhe seguiram e fizeram o nosso Império), quer na forma criminosa como entregaram as colónias à voragem dos comunistas permitindo assim a muita dessa rapaziada enriquecer escandalosamente à custa da infelicidade dos seus compatriotas, quer na forma como entregaram a nossa debilitada soberania a uma entidade supra-nacional. Portugal é hoje um país fantoche entregue aos burocratas de Bruxelas. Paz à tua alma, Portugal!

3.9.09

Escândalo

No passado domingo fui excepcionalmente à missa na igreja de S. João Baptista do Lumiar. O pároco da referida paróquia brindou-nos com uma homilia na qual pontuaram alguns elogios à nossa “estimada” constituição devido às suas abundantes referências à igualdade. Facto no mínimo surpreendente sabendo-se a mesma obra de republicanos socialistas e laicos, logo maçons. Mas adiante. O pior estava para vir. No momento da Comunhão e, ao chegar a minha vez, como de costume, abri a boca esperando recebe-la. Qual não foi o meu espanto quando a senhora que a estava a dar me disse: “Dê-me a sua mão!” enquanto me enfiava à força a hóstia na mão. O pároco, que estava ao lado desta senhora a dar igualmente a Comunhão, apercebendo-se da minha estupefacção e recusa em comungar desta forma olhou para mim e disse: “Aqui é assim!” Confesso, com vergonha, que perante a situação e para evitar mais trocas de palavras acabei. Saí dali furioso, com o pároco e comigo próprio por ter cedido. Este insigne modernista permite-se mandar às urtigas, não só a carta do Cardeal Patriarca (de quem sei ser muito amigo) e que dizia claramente que ninguém pode ser impedido de comungar na boca, como tudo o que Bento XVI tem dito sobre a forma correcta de comungar. Até quando teremos de suportar estes mafarricos de sotaina? Não haverá meio de lhes fazer o que Cristo fez aos vendilhões do templo?

2.9.09

Cegueira ideológica

Tendo estado ausente em França por razões familiares, ouvi na rádio ao regressar a Portugal que o governo, não contente com o imenso descalabro que é o ensino no pós 25 de Abril, decidiu prolongar o ensino obrigatório até ao 12º ano. Eis a dinâmica igualitarista democrática, e por isso inimiga da autêntica mobilidade social, isto é, fruto do trabalho honesto e não do facilitismo, em todo o seu esplendor. Ao baixar-se o grau de exigência do ensino está a criar-se nas massas a ilusão de uma mobilidade social., a criar frustrados (lá dizia o sinistro S. Just “Os infelizes são o poder da terra”) e a impedir que aqueles que, oriundos de um meio familiar menos intelectualmente estimulante, possam adquirir um mínimo de conhecimentos de cultura geral (e o gosto pela sua aquisição) para suprir essa carência de origem, bloqueando-se assim na prática a mobilidade social. Isto já para não falar em todo o condicionamento ideológico do ensino. Com que autoridade se lamenta o excesso de licenciados em tantas áreas do mercado de trabalho? E a ausência de técnicos qualificados? Esta medida é, na boa tradição da esquerda, um hino à estupidez e uma declaração de ódio aos mais desfavorecidos. Há 35 anos que somos vitimas desta malta. Paz à tua alma, Portugal!

16.6.09

"Liberdade"

Percorrendo recentemente o interior dos Jerónimos deparo-me a dada altura com um cartaz anunciando para breve uma conferência intitulada, “Homenagem à liberdade”, o que me chamou imediatamente a atenção. Ao lê-lo deparo-me com alguns nomes conhecidos, dos quais apenas retive dois, o ilustre “filho” de Maritain e oráculo do regime (como muito bem lhe chama Brandão Ferreira), Marcelo Rebelo de Sousa e o do bispo do Porto, D. Manuel Clemente. Decididamente a Igreja portuguesa continua a alinhar pelo diapasão do regime servindo-lhe de caução moral. Ainda há pouco a C.E.P. nos tinha presenteado com uma carta apelando ao voto e à participação dos católicos nos actos eleitorais que se avizinham, como se a natureza intrínseca do regime não tivesse qualquer importância, e, como tal, daí pudessem resultar mudanças significativas e quiçá a instauração de uma sociedade cristã. No fundo aquele documento é uma declaração de fé no próprio regime. Ver a Igreja portuguesa apadrinhar concepções absolutas de “liberdade” características da revolução francesa, isto é, destituídas de toda e qualquer noção de submissão a uma autoridade legítima, e por isso, assente numa Verdade de origem transcendente, é bem o resultado da imensa confusão que reina na cabeça daqueles génios. Além disso é demonstrar uma total incapacidade de compreender que o totalitarismo provém em grande medida da tendência natural do homem para se furtar a toda e qualquer autoridade, pensando assim passar a ser mais livre, mas acabando na realidade por ficar escravo daquele que é potencialmente o seu pior tirano, isto é, ele próprio. É este o drama do homem moderno.

25.4.09

Beato Nuno de Santa Maria

É ainda sob o impacte da leitura do fabuloso post do Corcunda sobre o Santo que me sinto impelido a escrever algo sobre esse maravilhoso acontecimento que será para nós portugueses, fiéis ao Portugal que hoje nos tentam fazer esquecer, a justíssima, se bem que tardia, canonização do nosso compatriota D. Nuno Alvares Pereira. No Anti-Portugal (com a devida vénia ao autor da expressão) em que vivemos e no qual é possivel assassinar a pedido um inocente no ventre da sua mãe, que sentido tem hoje falar de um Homem para quem servir a Cristo era servir simultaneamente os dois Reinos, o Celeste e o de Portugal, algo hoje impossivel? Quando pensamos no exemplo enorme de abnegação, de humildade, de sentido do próximo ,de prática da caridade, de desprendimento pelas riquezas terrenas e vemos o que temos no Anti-Portugal no qual o poder, em vez de serviço, é motivo de luta e serve para obter vantagem para si e para os seus, escarrando na memória de Portugal e destruindo-lhe a alma, o que mais podemos esperar?
Termino com uma citação da "Mensagem" que é das mais belas palavras que se pode derigir ao Santo.
Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É a Excalibur a ungida,
Que o rei Artur te deu.
'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver
Como precisamos hoje da luz da sua espada. Intercede por nós junto do Pai para que nos ajude a derrotar o Anti-Porugal. Obrigado pelo testemunho da tua Fé, Nuno.

3.4.09

Rerum Novarum


Terminei recentemente de ler na sua totalidade, visto que até agora apenas tinha lido excertos, a famosa “Rerum Novarum” de 1891 e que é habitualmente designada como a primeira das grandes encíclicas sociais. Neste caso e, como é sabido, esta pretendia ser uma resposta às ideias socialistas que simulavam querer responder ao problema da condição dos operários, submetidos que estavam na época a condições de trabalho que atentavam à sua dignidade de seres humanos, quando na realidade o objectivo era evidentemente o contrário. Partindo deste propósito Leão XIII escreveu um texto que abarca a generalidade da organização da sociedade que se quer cristã e que, por isso, deverá ter toda as suas instuições vinculadas à lei natural. Naturalmente que isto exclui à partida a possibilidade de as massas poderem alterar esse elemento agregador dessa mesma sociedade o que é obviamente excelente. Um documento que é uma obra-prima de bom senso e sabedoria e que por isso seria hoje considerado pelos meios “bem pensantes” como “fascista” e retrógrado. Uma dos aspectos que me levou a lê-la foi o facto de ter em parte inspirado Salazar, e aqueles que com ele trabalharam, na elaboração da Constituição da República Corporativa, a tal que para pesadelo dos democratas abrilinos, até foi referendada. De facto a defesa das corporações tem um grande peso nesta encíclica na qual não é feita a mínima alusão a partidos políticos. Mas oiçamos aquilo que Leão XIII diz logo no início da encíclica:

“O século passado destrui, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles (operários) uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregue à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada.”

Quem, desprovido de “hipnose abrilina”, duvida ser hoje a exploração muito mais desenfreada, visto ser executada por “senhores desumanos”, do que antes do 25 de Abril? Ainda por cima estes mesmos senhores consideram-se de “amigos do povo”? Não sei porquê mas ocorro-me o nome de um jornal que Robespierre publicava ainda antes de 1789 e que se chamava precisamente, “L'ami du peuple”. Porque será que todo este edifício jurídico consubstanciado na Constituição de 1933 é hoje tão selvaticamente vilipendiado? Muito mais haveria a dizer desta grande encíclica mas hoje fico-me por aqui. Talvez no próximo post me venha a referir a ela mais uma vez.

24.3.09

Aniversário Reaça

O meu blogue preferido faz hoje a bonita idade de 5 anos. Tenho muita dificuldade em exprimir tudo o que devo a essa "pasquinada", cujos posts leio e releio várias vezes para melhor os "assimilar". Haver alguém que de uma forma simples, mas não simplista naturalmente, expõe o seu imenso saber e o partilha com humildes criaturas como eu, é algo que jamais poderei agradecer convenientemente. Se estou aqui a escrever estes disparates devo-o em parte ao senhor da "protuberância dorsal" e a outro amigo com quem em tempos partilhei este blogue. Mas o mais precioso de tudo é o ter ganho um grande amigo. Bem haja, Corcunda!

23.3.09

Obrigado, Santo Padre!


Tenho acompanhado por alto, confesso que tenho cada vez menos paciência para os média, a polémica nojenta da história do preservativo. Os selvagens que defendem a todo o transe o preservativo, para além do propósito óbvio de atacar o Santo Padre e com ele a Igreja, são o reflexo da ordem liberal, isto é, da democracia que assenta na satisfação no mais rápido espaço de tempo dos desejos mais primários das massas. Todos nós sabemos ser esse hoje o critério para aferir um “bom governante”, falar de um critério exterior ao homem que assente numa Verdade transcendente e, como tal, imutável seria imediatamente percepcionado como uma “tirania” intolerável. Daí que não nos surpreenda que todos os que criticam o Papa estejam imbuídos de uma cultura hedonista que os torna primários, escravos dos seus desejos e, consequentemente, eternas crianças mimadas. Dou graças a Deus pelo meu querido Papa que diz verdades tão incómodas, (a verdade é-o quase sempre), que ignora o "pensamento único" e, acima de tudo, é presença viva e testemunha do Amor d'Aquele que deu a sua vida e ressuscitou por todos nós.

17.3.09

Soljenitsyne

Recebi recentemente um texto enviado por um amigo legitimista francês sobre um célebre discurso feito por Soljenitsyne em 1978 em Harvard e com o título “O declínio da coragem”. Um texto de uma profundidade de análise e de uma actualidade impressionantes. Ao analisar a origem de estrutural incapacidade do Ocidente em se defender ele vai ao âmago da questão ao falar da indigência espiritual do homem moderno. Ao procurar a génese de tal tragédia ele não hesita em afirmar que “o erro deve estar na raiz, na base do pensamento moderno. Eu refiro-me à visão do mundo que prevaleceu no Ocidente na época moderna e na Renascença, e cujas consequências políticas se manifestaram a partir do Iluminismo. Ela tornou-se na base da doutrina social e política e poderia ser chamada, humanismo racionalista., ou autonomia humanista.: a autonomia proclamada e praticada pelo homem em relação a toda e qualquer força superior a ele. Podemos, pois, falar de antropocentrismo, isto é, o homem é visto no centro de tudo”. Quase trinta e um anos depois este discurso é hoje tão válido, ou mesmo ainda mais, do que há trinta e um anos. Um mundo que nega ao Homem a Esperança ao fazer-lhe querer que o Reino Céus é aqui na Terra, quer por via dos “manhãs que cantam” quer do “mercado global”, é um mundo inumano, como o podemos constatar diariamente. O Homem moderno é o “filho pródigo” que se compraz com batatas podres e renuncia assim ao tesoiro que o seu Pai lhe tem reservado. Mas o Pai não tem pressa, Ele tem tempo, Ele é o próprio tempo, Ele é. Quando terminará a bebedeira deste filho apóstata, que é o Homem moderno?

9.3.09

Românico

Tive recentemente a possibilidade de visitar a Rota do Românico do Vale do Sousa, região que tal, como o nome indica, é banhada pelo rio Sousa afluente da margem direita do Douro e que conflui com o rio Ferreira um pouco antes da foz. Esta rota foi criada precisamente para divulgar a grande riqueza turística da região e da qual fazem parte vinte e um monumentos, na sua maioria religiosos como de resto acontece quase sempre com o românico, mas também uma rica gastronomia e uma paisagem que sendo potencialmente bela está infelizmente muito desnaturada por construções hediondas fruto do “poder local” que Abril nos trouxe. Mas para mim o mais interessante, para além da fruição estética das ditas igrejas, é, em grande medida, o compreender a génese da nação, não só da nossa especificamente da nossa, mas das outras europeias. Os fieis, após a Missa, reuniam-se próximo da igreja, ou mesmo no adro, para discutirem os problemas da organização da polis, daí afirmar-se que a nação é o prolongamento natural da comunidade dos fiéis, isto é, a sua dimensão política. Claro que ao escrever isto é-me impossível não pensar no excelente artigo de Pierre Manent, aqui em tempos referido, e do qual tomei conhecimento na famosa “Pasquinada”. Graças a este artigo compreende-se melhor porque é que a nação, enquanto fenómeno político, só é possível no contexto do cristianismo no qual os fieis estão unidos pelo apelo da prática da Caridade e pelo Amor de Deus, daí que no contexto islâmico tal entidade nunca tenha surgido. Ao visitar todas estas igrejas, todas elas coevas do início da nossa Nação pensei em como esta se foi progressivamente estruturando, sob a autoridade real e a religiosa, de uma forma natural, isto é, não ideológica, ou, se se quiser ainda, orgânica. E assim se fez uma Nação que cresceu e que evangelizou e que se orgulhou de tal facto até que um bando de traidores em Abril de 1974 resolveu fazer tábua rasa de tudo isto.

21.2.09

Pedrada no charco

Acabo de me deliciar com a leitura do discurso que Vaclav Klaus proferiu, anteontem senão me engano, perante os eurodeputados. Tive a agradável sensação de estar perante um Estadista, algo que há mais de quarenta anos não conhecemos cá em Portugal. Foi um discurso com grande solidez de argumentação e realismo na abordagem da eufemisticamente designada "construção europeia" e que é fruto, em grande medida, da sua própria experiência do comunismo, o que lhe retira a "mácula" do politicamente correcto. Isto permite-lhe, um pouco à semelhança daquilo que Bukovsky faz, estabelecer, ainda que de uma forma implícita, uma analogia entre a defunta União Soviética e a futura defunta União Europeia. Como bons ideólogos colocados perante a verdade alguns (não sei quantos) eurodeputados , viraram-lhe costas e abandonaram a sala como forma de protesto. Uma atitude que espelha bem a forma autista como este processo sinistro está a ser conduzido. Que bom seria se houvesse mais "Vaclv's Klaus"!

14.2.09

Anedota

Só tendo anteontem podido comprar “O Diabo” nele me deparo com uma pergunta ao alto da capa que me causou uma imensa gargalhada: “Como regenerar o regime?” Porventura haverá “santos laicos” com capacidade para executar semelhante milagre? Isso seria trágico para Portugal, mas como o regime é estruturalmente incapaz de se regenerar nada temos a temer quanto a isso.

"Progresso"


Recebi ontem um email de uma pessoa amiga no qual se dava conta de mais uma brilhante iniciativa desta rapaziada do PS. Foi aprovado em Conselho de Ministros do passado dia 5 uma proposta de lei de “Apadrinhamento civil”. Tanto quanto pude apurar é uma lei suficientemente dúbia (a começar pela própria terminologia) para deixar aberta a possibilidade de adopção de crianças por parte de “casais” homosexuais, o que significa que na prática estamos perante uma forma encapotada de oficializar “adopções de facto”. Mais um “progresso civilizacional”, fruto deste piscar de olho aos trotskistas do Bloco que Sócrates tem vindo a executar recentemente. Escusado será dizer que estão previstos vários incentivos fiscais que não contemplam aqueles “retrógrados” que assumiram um casamento a sério com todas as obrigações que tal implica. Quando se trata de destruir esse pilar fundamental da sociedade que é a família tudo é pouco. Que irá a CEP dizer quanto a isto?

30.1.09

Ainda a questão da Monarquia

Li com imensa satisfação o post do Corcunda “Algumas reflexões sobre o perigo da Monarquia”, devido ao seu rigor, profundidade e contundência. Podemos afirmar que o regime fruto das Guerras Liberais marcou o primeiro contacto de Portugal com uma democracia bi-partidária, fruto da Revolução Francesa e nele encontramos muitas das patologias que actualmente vemos no nosso sistema partidocrático da III República; a utilização do poder em benefício próprio por uma grande parte da classe política, o divórcio total entre o país real e o político, a compra de votos (caciquismo), centralização administrativa e crescente endividamento do Estado. No fundo ambos os regimes são fruto da ideologia, isto é, fruto de uma ideia pré-concebida da realidade e à qual se pretende adaptar o povo, alterando-lhe, ou tentando alterar, as suas características. São feitos para homens abstractos, todos iguaizinhos e intermutáveis, auto-suficientes no plano moral e, como tal, destituídos de uma relação a uma transcendência, visto que tal é visto como um fardo, como uma submissão intolerável. O corolário desta visão antropocêntrica do Homem é um regime assente na sinistra “vontade popular”, com todas as tragédias que daí decorrem. Oiça-se a propósito as sábias palavras de Leão XIII na sua Encíclica “Diuturnum” (Junho de 1881), sobre a origem do poder civil:

“…Recusar reconhecer a Deus como fonte do poder, é querer retirar ao poder todo o seu brilho e todo o seu vigor. Ao faze-lo depender da “vontade do povo” comete-se, antes de mais, um erro de princípio, e além disso apenas se dá à autoridade um fundamento frágil e sem consistência. Estas opiniões são um estímulo permanente às paixões populares, que se tornarão cada dia mais ousadas preparando assim a ruína pública e criando as condições para conspirações secretas ou sedições.”

Parecia que o Papa estava a adivinhar o que seria o fim da Monarquia Liberal e da I República (isto só para falar cá de Portugal). Se tivermos em conta que esta Encíclica foi apresentada em 1881, não está nada mal. Quanto às Monarquias existentes na Europa, e para não me alongar muito mais, basta pensar na naturalidade com que vemos os PMs desses mesmos países em confraternização com o Presidente francês, nas comemorações do 14 de Julho, ou nos ataques ferocíssimos à Igreja, e ao ensino católico (entre outros), por parte de Zapatero em Espanha, tudo sem que o Rei possa interferir. Estou a lembrar-me igualmente da ultra-liberal Inglaterra na qual o infanticídio pré-natal é permitido até às 24 semanas. Será isto o melhor para Portugal?